26.6.08

A ficção é você que faz

-Não tente me ensinar a correr, se você sequer aprendeu a caminhar. Irvin, não me venha com conselhos sábios vindo dos lábios de um imbecil. Não fale de sabedoria, consciência, presteza e virtudes se já lhe vi comendo do lixo, em noites tão negras quanto sua alma. Não me venha comentar feitos e fatos gloriosos, se sei que viveste todos em devaneios noturnos, em delírios vespertinos. Não conte as mentiras que te fazem feliz, pois elas me rasgam a retina, me arrancam do peito suspiros que machucam a garganta. Apague seu cigarro e ponha-se daqui para fora. Para o seu lugar, que longe é, e de difícil acesso. Seu lugar não é ao meu lado, irmão, seu lugar é inabitado, é inóspito, e lá, nem serpentes de pedra habitam. Suas palavras soam como sussurros vindo de cavernas geladas. O pingüim escorrega e você corre atrás com as mãos atadas. Você prega sua moral com farsas. Irvin, você caiu há tempo, só lhe resta perceber o quão próximo está o chão. E então assim, você pode, com todo seu falso glamour, estourar o crânio no chão frio.

-Eraldo, meu irmão, você fala de princípios, fala que vive uma ideologia. Fala de verdades absolutas. Fala que minto, que engano, que dissimulo. Você fala de virtudes que nunca conheceu. Você simula sentimentos que nunca buscou, que o encontraram enquanto você mesmo revirava o lixo, bebia do vinho e comia da carne. Você prega as palavras em cruzes de aço e espera que elas sumam dali em três dias. Você é a farsa. Você fala através de sintonias finas tudo aquilo que desejaria ouvir de outros. Na sua bolha não existe espaço para mais ninguém, senão você mesmo. Você disserta sobre minhas fraudes, mas as viveu com igual ou maior intensidade. Você nem sequer se livrou de alguns dos vícios pelos quais me julga. Você é o retalho de uma pessoa, você é a parte ruim, que não se encaixou com as outras. Você é o resto, a sobra... e amigo, não há como negar, você não passa de refugo.

Texto extraído de: http://acendeofosforojoganocopo.blogspot.com/