O quarto era branco quando eu cheguei aqui. As flores eram novas, e seu vaso era transparente. A cama tinha lençóis limpos e travesseiros macios. A TV funcionava perfeitamente, pegava uns duzentos canais, quase não tinha intervalos comerciais. Meus pés pareciam tão alcançáveis, apesar de não poder tocá-los com a ponta dos dedos da mão. As pernas não eram sentidas, mas isso iria passar, os médicos tinham fortes esperanças. Os médicos tinham esperança e as janelas eram limpas. Minha família me visitava uma vez por dia. Quando as flores começaram a ceder à gravidade, eles vinham a cada dois dias. Quando a TV passou a só captar a transmissão VHF, eles vinham uma vez por semana. E assim que meu calcanhar começou a necrosar, eles passaram a vir somente quando a emergência exigia, normalmente após eu ter sofrido alguma convulsão ou algo semelhante.
Quando a ponta dos dedos dos pés passaram a estar a uma distância quase inalcançável, eu comecei a sentir medo. Minha garganta doía sempre que eu acordava, eu não conseguia salivar, dormindo de boca aberta, sempre com medo. Eu passei a ser um móvel indesejado no hospital. Eu não conseguia mexer os braços, e sequer emitir sons. Meu cabelo caía e a minha barba dominava meu rosto; tentava por diversas vezes subir pela maçã do rosto para chegar aos olhos, em vão.
As cortinas não eram trocadas, e eu passei a ver nelas pinturas formadas pelas manchas de mofo. Via no topo um velho segurando um cajado, com um cachimbo na boca; meio caído pro lado, soltando uma nuvem de fumaça.
Abaixo tinha uma pantera caolha, que lambia as presas. Uma pantera caolha sem rabo.
Na ponta mais próxima de mim tinha um duende, desses de desenhos animados, com nariz e orelhas pontudas. Um gorro no topo da cabeça, e quatro dedos em cada mão.
Meus companheiros durante as semanas que eu passei ainda lúcido.
Em seguida, vieram os vultos, os fantasmas, as sombras. Então eu não aguentei.
Minha traquéia expelia pus e sangue. Em dois dias eu estava morto, com serragem dentro do meu intestino. Nunca fui tão feliz.
[por onde estive]
4.2.09
29.12.08
Merdamorfose

Já comentei uma vez sobre fazer de um FLOG mais Foto e menos Log. E nessa epifânica inspiração mediúnica, fiz essa cagada.
Um pouco daquilo tudo que eu acho importante.
Um muito de tudo que faz parte de mim.
Um tanto de tudo quanto, imortal enquanto dure.
Querido diário, desde Julho estou trabalhando.
Não tenho carteira assinada, nem todos os direitos que Getúlio Vargas imperou. Durante os últimos meses peguei cerca de 5 ônibus para me locomover entre minha casa, um curso que eu fiz, o trabalho, e a minha casa. Ganhei dinheiro o suficiente pra saber o estrago que ele faz na vida de um cretino como eu. Parei de fumar 6 vezes. Na sétima me mantenho, limpo feito janela de hospital, que vez ou outra encontra um pouco de merda de pombo. Agora de férias derreto na cadeira em frente ao computador, e anseio pela refrigeração do inverno avassalador que nos permite bater o queixo na parada de ônibus. Não bebo mais como eu bebia, quase não vejo meus antigos amigos - senão por encontros altamente casuais enquanto cada um vive sua vida -, mantenho o namoro de mais de 2 anos, e estou de férias.
Voltei a escrever em você, querido diário, porque nesse ócio em que me encontro, você parece me entender, e sacar as mazelas pelas quais eu passo sem uma atividade que me ocupe durante as horas em que passo acordado. E hoje aqui, me deparo com um Eraldo bizarro. Que anda para trás, dorme de tênis e caminha de pantufas. Um Eraldo bizarro que compra tênis com três listras, e almoça em lugares cuja a pronúncia é difícil, aqui no terceiro mundo. Tenho medo da morte, mas a crise financeira não faz nem cécegas no meu rabo. Vomito ao ver o que se tornou a programação da TV aberta.
Diário, estou viciado em seriados, mais do que nunca. Lost, Heroes, Prison Break, House, Dexter... vejo um filme por dia, às vezes mais. Não tenho um futuro garantido. Mas sei que quero um apartamento para dividir com a moça cujo nome está encravado em um anel de prata no meu dedo. Sei que minha vida toma rumos que nem sonhei quando escrevia versos nas paredes do meu quarto, ou quando escrevia tatuagens na minha mão. Hoje não trago mais uma letra alfabética no punho, trago estrelas sobrepostas, que assim como são, tapam buracos da minha estória, e vedam com fita isolante, fatos que não me orgulham mais.
Querido diário, hoje tenho dores nas pernas e vou dormir, sabendo que uma nova lei vigora; amanhã será uma nova aurora.
12.9.08
Abre a boca
Da boca das pessoas sai a fumaça que me faz tanto mal. A fumaça que pelas ventas adentra na minha cabeça, e lá faz sua festa demoníaca, com direito a sacrifício humano e tudo mais. Bacanais no meu cérebro, e eu estático, feito dois de paus. Caminhando pela calçada mal iluminada de uma grande avenida, eu sinto o cheiro da fritura. Cérebros fritando, almas sendo vendidas a preço de banana. Hoje eu acordei com uma predisposição insana a ser um filhodaputa. Poderia chutar a barriga de uma grávida, se eu soubesse que isso me faria sentir vivo.
Hoje as fontes das praças têm uma beleza a mais: cospem sangue na cara dos felizes passantes.
Hoje coisas inacreditáveis tendem a acontecer. Hoje é sexta, e a vida se extingue um pouco mais, agora que as belas coisas do mundo soterraram de barro e cinzas a podridão. Eu não sou mais uma patologia incurável. Acordo cedo, pra correr contra o tempo que enche de areia meus olhos.
Na primeira esquina, vi um rapaz morrendo. Foi baleado duas vezes. Agonizou. Ninguém fez nada. Eu bem que tentei, mas não deixaram eu pegar seu relógio para mim. E a velha do outro lado da rua fuma seu baseado, achando que os prédios irão ficar para sempre de pé... um dia ela se fode, eu vou gargalhar, tal como fez Deus, no sétimo dia.
Hoje as fontes das praças têm uma beleza a mais: cospem sangue na cara dos felizes passantes.
Hoje coisas inacreditáveis tendem a acontecer. Hoje é sexta, e a vida se extingue um pouco mais, agora que as belas coisas do mundo soterraram de barro e cinzas a podridão. Eu não sou mais uma patologia incurável. Acordo cedo, pra correr contra o tempo que enche de areia meus olhos.
Na primeira esquina, vi um rapaz morrendo. Foi baleado duas vezes. Agonizou. Ninguém fez nada. Eu bem que tentei, mas não deixaram eu pegar seu relógio para mim. E a velha do outro lado da rua fuma seu baseado, achando que os prédios irão ficar para sempre de pé... um dia ela se fode, eu vou gargalhar, tal como fez Deus, no sétimo dia.
13.7.08
Sou bom demais para oferecer a outra face
Se eu falo, acabo mentindo. Minto mesmo. Vejo mágica nestas estórias que trazem ao peito, suspiros encantadores. Vejo beleza nas vontades enganatórias que publicamos em nossos sorrisos, a procura de amores, de paixões, de falsos desejos. Queremos ter filhos e mentir para os filhos, queremos que os filhos mintam para os netos, e que os bisnetos morram afogados no lixo que produzimos. Respire fundo, e cuidado para não se afogar nas bitucas do meu cinzeiro, filho...
Tudo pela conveniência. Tudo pelo comodismo de ser obeso. Tudo pela vontade de não levantar-se ao ouvir baterem na porta. Será que a porta não consegue se abrir sozinha?
Um dia eu levanto de vez, começo uma dieta a base de sucrilhos de alumínio e drinques de amianto. Um dia eu elevo meu espírito a tal ponto que baterei com a nuca em nuvens doces de plasma. Um dia o quinto elemento me sairá das veias, reflexo puro da vida que mantive. Respiro fundo, inalo a fumaça preta dos escapamentos, trago meu cigarro e cuspo no meu sapato. Acordo cedo.
Não cedo a impulsos eletromagnéticos. Não caio nos contos da Bíblia. Eu cansei de me atirar de braços e esperar Deus para me segurar. Tentei o barbudo clássico de branco, tentei o gordo careca, tentei a mulher de seis braços com uma pinta na testa, tentei um elefante malucão. Nada funcionou. Percebi que sou bom demais para oferecer a outra face. Percebi que sou bom demais para levar bofetadas. Não vou ser malabarista. Não me arrisco a ser mártir e ao mesmo tempo, sorrir ao morrer. Não invento mais sobrenomes. Agora sou eu mesmo. E mais dois, ou três. Se Fernando era Álvaro, por que eu não posso ser outro?
E Alighieri não me deixa mentir, existem mais coisas entre o céu e o inferno do que a sua vã filosofia pode imaginar.
Tudo pela conveniência. Tudo pelo comodismo de ser obeso. Tudo pela vontade de não levantar-se ao ouvir baterem na porta. Será que a porta não consegue se abrir sozinha?
Um dia eu levanto de vez, começo uma dieta a base de sucrilhos de alumínio e drinques de amianto. Um dia eu elevo meu espírito a tal ponto que baterei com a nuca em nuvens doces de plasma. Um dia o quinto elemento me sairá das veias, reflexo puro da vida que mantive. Respiro fundo, inalo a fumaça preta dos escapamentos, trago meu cigarro e cuspo no meu sapato. Acordo cedo.
Não cedo a impulsos eletromagnéticos. Não caio nos contos da Bíblia. Eu cansei de me atirar de braços e esperar Deus para me segurar. Tentei o barbudo clássico de branco, tentei o gordo careca, tentei a mulher de seis braços com uma pinta na testa, tentei um elefante malucão. Nada funcionou. Percebi que sou bom demais para oferecer a outra face. Percebi que sou bom demais para levar bofetadas. Não vou ser malabarista. Não me arrisco a ser mártir e ao mesmo tempo, sorrir ao morrer. Não invento mais sobrenomes. Agora sou eu mesmo. E mais dois, ou três. Se Fernando era Álvaro, por que eu não posso ser outro?
E Alighieri não me deixa mentir, existem mais coisas entre o céu e o inferno do que a sua vã filosofia pode imaginar.
26.6.08
Corre mais
Fico de costas para a rua enquanto me esforço para acabar com este cigarro, enquanto me definho para engolir este café amargo. -Mais café, senhor?
A atendente deve ter problemas em ler o rosto das pessoas. Penso você deveria saber que se eu retorço o rosto ao beber o café, ele deve estar um tanto ruim. -Não, obrigado, estou satisfeito.
Quem me dera acreditar nisso. Termino o cigarro e o apago na mesa de madeira do bar. Eles devem ter alguém para reparar aquele tipo de agressão. Se não tiverem, terão agora uma mesa com uma bonita queimadura de cigarro. Será que eu pensei nisso quando apaguei aqueles outros em meus braços?.
Ando para onde tenho que ir. Sigo pela calçada até o exato momento de me encontrar com os velhos conhecidos. Os amigos, diriam uns. Eu não digo mais nada.
-Como vai, Eraldo?
-Vou bem, na medida do (im)possível.
-Continua indo aos mesmos lugares?
-Sim sim, Do hospital pra casa, de casa para a sarjeta, e você?
-Vou bem, arrumei um novo emprego e...
É nessa parte que eu começo a cantar em voz baixa. Balbucio as letras que mais me agradam, e assopro melodias enquanto o colega à minha frente enche o peito para falar de seu novo emprego, do seu novo contracheque, da sua nova mesa, dos novos clientes. Essa parte eu chamo de "ouvir por ouvir". Ele parou de mexer a boca, talvez tenha reparado que eu não prestava atenção.
-Então...? ensaio uma extensão da conversa. A música estava no refrão
-Então é isso mesmo, deixei por aquilo mesmo. Não vou me estressar por causa do meu chefe idiota.
O chefe deve ser um cara legal
-Mas então tá, tenho que ir
-Mas vamos marcar alguma coisa!
-Marcamos agora então
Ele ficou sem jeito, o idiota nunca espera sinceridade dos amigos. Eu não gostaria de encontrá-lo mais tarde, mas pelo menos deixei o imbecil sem reação. Ele ficou procurando mentiras no celular, algo que demonstrasse o quão interessado ele está em agendar um encontro.
-Desculpe, aquele é meu ônibus, depois vemos isso.
Saio magistralmente da conversa, deixo o paspalho futricando no celular enquanto eu corro para a parada de ônibus. O coitado estava quase desistindo...
No ônibus percebo que não tenho o cartão para pagar a passagem. Não se pode argumentar com máquinas. Elas exigem somente aquele pedaço colorido de plástico. Nada mais. Não se sorri para máquinas, elas não pedem um abraço, e nem mesmo um favor em troca de outro. Não foi dessa vez... Desci do ônibus e me dei conta de que teria que caminhar. Pequena como é a minha cidade, era provável que eu encontrasse outro idiota no caminho. Outro imbecil.
-Eraldo? uma voz gritou do outro lado da rua.
Eu ignorei e segui adiante. Seria pior ter olhado. Caso o maldito me alcançasse, eventualmente eu teria que me explicar. Apertei o passo. O filho da puta me alcançou. Minhas previsões nunca falham. Poderia jogar na Mega Sena e ganharia o prêmio máximo, se fosse um idiota que fizesse o sorteio.
-Quase que tu foge de mim, rapaz
-Verdade, preciso começar a me exercitar mais
-Hein?
-Nada não. Se eu tiver que repetir, acabaria te dando um soco
A atendente deve ter problemas em ler o rosto das pessoas. Penso você deveria saber que se eu retorço o rosto ao beber o café, ele deve estar um tanto ruim. -Não, obrigado, estou satisfeito.
Quem me dera acreditar nisso. Termino o cigarro e o apago na mesa de madeira do bar. Eles devem ter alguém para reparar aquele tipo de agressão. Se não tiverem, terão agora uma mesa com uma bonita queimadura de cigarro. Será que eu pensei nisso quando apaguei aqueles outros em meus braços?.
Ando para onde tenho que ir. Sigo pela calçada até o exato momento de me encontrar com os velhos conhecidos. Os amigos, diriam uns. Eu não digo mais nada.
-Como vai, Eraldo?
-Vou bem, na medida do (im)possível.
-Continua indo aos mesmos lugares?
-Sim sim, Do hospital pra casa, de casa para a sarjeta, e você?
-Vou bem, arrumei um novo emprego e...
É nessa parte que eu começo a cantar em voz baixa. Balbucio as letras que mais me agradam, e assopro melodias enquanto o colega à minha frente enche o peito para falar de seu novo emprego, do seu novo contracheque, da sua nova mesa, dos novos clientes. Essa parte eu chamo de "ouvir por ouvir". Ele parou de mexer a boca, talvez tenha reparado que eu não prestava atenção.
-Então...? ensaio uma extensão da conversa. A música estava no refrão
-Então é isso mesmo, deixei por aquilo mesmo. Não vou me estressar por causa do meu chefe idiota.
O chefe deve ser um cara legal
-Mas então tá, tenho que ir
-Mas vamos marcar alguma coisa!
-Marcamos agora então
Ele ficou sem jeito, o idiota nunca espera sinceridade dos amigos. Eu não gostaria de encontrá-lo mais tarde, mas pelo menos deixei o imbecil sem reação. Ele ficou procurando mentiras no celular, algo que demonstrasse o quão interessado ele está em agendar um encontro.
-Desculpe, aquele é meu ônibus, depois vemos isso.
Saio magistralmente da conversa, deixo o paspalho futricando no celular enquanto eu corro para a parada de ônibus. O coitado estava quase desistindo...
No ônibus percebo que não tenho o cartão para pagar a passagem. Não se pode argumentar com máquinas. Elas exigem somente aquele pedaço colorido de plástico. Nada mais. Não se sorri para máquinas, elas não pedem um abraço, e nem mesmo um favor em troca de outro. Não foi dessa vez... Desci do ônibus e me dei conta de que teria que caminhar. Pequena como é a minha cidade, era provável que eu encontrasse outro idiota no caminho. Outro imbecil.
-Eraldo? uma voz gritou do outro lado da rua.
Eu ignorei e segui adiante. Seria pior ter olhado. Caso o maldito me alcançasse, eventualmente eu teria que me explicar. Apertei o passo. O filho da puta me alcançou. Minhas previsões nunca falham. Poderia jogar na Mega Sena e ganharia o prêmio máximo, se fosse um idiota que fizesse o sorteio.
-Quase que tu foge de mim, rapaz
-Verdade, preciso começar a me exercitar mais
-Hein?
-Nada não. Se eu tiver que repetir, acabaria te dando um soco
A ficção é você que faz
-Não tente me ensinar a correr, se você sequer aprendeu a caminhar. Irvin, não me venha com conselhos sábios vindo dos lábios de um imbecil. Não fale de sabedoria, consciência, presteza e virtudes se já lhe vi comendo do lixo, em noites tão negras quanto sua alma. Não me venha comentar feitos e fatos gloriosos, se sei que viveste todos em devaneios noturnos, em delírios vespertinos. Não conte as mentiras que te fazem feliz, pois elas me rasgam a retina, me arrancam do peito suspiros que machucam a garganta. Apague seu cigarro e ponha-se daqui para fora. Para o seu lugar, que longe é, e de difícil acesso. Seu lugar não é ao meu lado, irmão, seu lugar é inabitado, é inóspito, e lá, nem serpentes de pedra habitam. Suas palavras soam como sussurros vindo de cavernas geladas. O pingüim escorrega e você corre atrás com as mãos atadas. Você prega sua moral com farsas. Irvin, você caiu há tempo, só lhe resta perceber o quão próximo está o chão. E então assim, você pode, com todo seu falso glamour, estourar o crânio no chão frio.
-Eraldo, meu irmão, você fala de princípios, fala que vive uma ideologia. Fala de verdades absolutas. Fala que minto, que engano, que dissimulo. Você fala de virtudes que nunca conheceu. Você simula sentimentos que nunca buscou, que o encontraram enquanto você mesmo revirava o lixo, bebia do vinho e comia da carne. Você prega as palavras em cruzes de aço e espera que elas sumam dali em três dias. Você é a farsa. Você fala através de sintonias finas tudo aquilo que desejaria ouvir de outros. Na sua bolha não existe espaço para mais ninguém, senão você mesmo. Você disserta sobre minhas fraudes, mas as viveu com igual ou maior intensidade. Você nem sequer se livrou de alguns dos vícios pelos quais me julga. Você é o retalho de uma pessoa, você é a parte ruim, que não se encaixou com as outras. Você é o resto, a sobra... e amigo, não há como negar, você não passa de refugo.
Texto extraído de: http://acendeofosforojoganocopo.blogspot.com/
-Eraldo, meu irmão, você fala de princípios, fala que vive uma ideologia. Fala de verdades absolutas. Fala que minto, que engano, que dissimulo. Você fala de virtudes que nunca conheceu. Você simula sentimentos que nunca buscou, que o encontraram enquanto você mesmo revirava o lixo, bebia do vinho e comia da carne. Você prega as palavras em cruzes de aço e espera que elas sumam dali em três dias. Você é a farsa. Você fala através de sintonias finas tudo aquilo que desejaria ouvir de outros. Na sua bolha não existe espaço para mais ninguém, senão você mesmo. Você disserta sobre minhas fraudes, mas as viveu com igual ou maior intensidade. Você nem sequer se livrou de alguns dos vícios pelos quais me julga. Você é o retalho de uma pessoa, você é a parte ruim, que não se encaixou com as outras. Você é o resto, a sobra... e amigo, não há como negar, você não passa de refugo.
Texto extraído de: http://acendeofosforojoganocopo.blogspot.com/
25.6.08
A dança das sensações
Parece tão bobo não pensar nas mentiras que ouvimos, nas verdades que gostamos. É mais fácil acreditar em uma mentira agradável, complicado mesmo é levar fé em uma verdade inconveniente. Dar a cara a tapa, sem buscar revidar com pedras e paus. Difícil é correr o risco de ser feliz, caindo de braços abertos nas navalhas do ventilador da marca consciência. Potência turbo. Você cai uma vez.
De olhos fechados você percebe que ainda pode descer, e cada vez mais busca o fim do poço... o fim dos dias. Cada dia mais perto do escuro, luzes não são buscadas no final do túnel, nem luzes, nem velas. Talvez uma coroa de flores fique bem no seu funeral. Quando os vermes comerem seu paletó negro, você vai se dar conta da segunda queda, que dói mais por dentro, porque você não sente o frio nos pés há pelo menos seis andares. Você vai pela segunda vez.
Uma vez mais rumo à conclusão. Ao fim.
A boca selada. As cicatrizes expostas. As feridas abertas. O ânimo enterrado. Nada pode dar mais errado quando você está comendo grama pela raiz. Nada pode ser pior. Tudo está em um estágio deteriorado, fúnebre, coalizado. Doces deletérios te forçam a mente. Você precisa encarar que ainda pode piorar. Nada está tão ruim que não possa ser piorado. No sétimo dia, ele gargalhou. Na sua cara... você cai um pouco mais, aos poucos. Um tanto mais. A gravidade ajuda. Você estoura os dentes e arrebenta os pontos no chão frio e cinza. O cheiro de fumaça toma conta do ar, respirar não é mais necessário, seus pulmões estão podres. Mas ainda assim, é difícil conviver com a situação. Você não é mais do que carne podre. Você é o que você come. Você é o que você veste. Você é o que você tem na sua carteira. E você cai um pouco mais, porque quando se vende tanto assim, sempre se pode sucumbir um tanto mais. Se pode, e se vai.
Tão rápido quanto um tiro, você dispara contra sua cabeça as mentiras mais espertas. Que enganam as verdades que você cria. E tudo funciona quando uma coisa ignora outra. Quando as coisas perdem o sentido pra você... quando você escreve, escreve, mas nada sai como devia. Quando você quer falar na terceira pessoa, mas tudo acaba saindo na primeira. Eu, tal qual convivo comigo mesmo, aviso que isso tudo é mentira. E essa é a verdade na qual acredito, queira você ou não, caro Sr. Irvin.
Atenciosamente, Eraldo Sétimo.
De olhos fechados você percebe que ainda pode descer, e cada vez mais busca o fim do poço... o fim dos dias. Cada dia mais perto do escuro, luzes não são buscadas no final do túnel, nem luzes, nem velas. Talvez uma coroa de flores fique bem no seu funeral. Quando os vermes comerem seu paletó negro, você vai se dar conta da segunda queda, que dói mais por dentro, porque você não sente o frio nos pés há pelo menos seis andares. Você vai pela segunda vez.
Uma vez mais rumo à conclusão. Ao fim.
A boca selada. As cicatrizes expostas. As feridas abertas. O ânimo enterrado. Nada pode dar mais errado quando você está comendo grama pela raiz. Nada pode ser pior. Tudo está em um estágio deteriorado, fúnebre, coalizado. Doces deletérios te forçam a mente. Você precisa encarar que ainda pode piorar. Nada está tão ruim que não possa ser piorado. No sétimo dia, ele gargalhou. Na sua cara... você cai um pouco mais, aos poucos. Um tanto mais. A gravidade ajuda. Você estoura os dentes e arrebenta os pontos no chão frio e cinza. O cheiro de fumaça toma conta do ar, respirar não é mais necessário, seus pulmões estão podres. Mas ainda assim, é difícil conviver com a situação. Você não é mais do que carne podre. Você é o que você come. Você é o que você veste. Você é o que você tem na sua carteira. E você cai um pouco mais, porque quando se vende tanto assim, sempre se pode sucumbir um tanto mais. Se pode, e se vai.
Tão rápido quanto um tiro, você dispara contra sua cabeça as mentiras mais espertas. Que enganam as verdades que você cria. E tudo funciona quando uma coisa ignora outra. Quando as coisas perdem o sentido pra você... quando você escreve, escreve, mas nada sai como devia. Quando você quer falar na terceira pessoa, mas tudo acaba saindo na primeira. Eu, tal qual convivo comigo mesmo, aviso que isso tudo é mentira. E essa é a verdade na qual acredito, queira você ou não, caro Sr. Irvin.

Atenciosamente, Eraldo Sétimo.
12.5.08
Ode a uma vida insignificante(mente complexa)

Tudo começa em branco.
No vazio resplandecente, no vácuo absoluto. Nem a física explica a forma como é dado o início. A gênese é oca. Não tem cor, nem forma. Não pretende donzelas, menos ainda dotes em ouro. Não deseja um emprego bom, um salário merecido e nem mesmo hobbys articulados e socialmente aprazíveis. O começo é cru.
Beira o nojento, de tão deserto.
E como em tudo o que se há fundamentos e protocolos, o branco deserto toma formas. Ora perpendiculares, ora oblíquas, e quase sempre, indiferentemente, sem sentido; como esse texto.
E não existe nada em frente ao nada. Não existe princípio de origem, nem célula clone. Não existe companheiro em quem se apoiar, nem irmão cujo ombro lhe assegure conforto.
Quando nada existe, não tem caminho a seguir, se não o de se foder. Sim. Se foder completamente, caindo por todos os lados, se amparando em paredes mofadas.
E um dia você aprende a andar. Com sorte, morre lendo Shakespeare. E no segundo seguinte a morte prematura do vazio, você nasce praguejando contra o serviço social do seu país, e contra seus pais, tão aprisionadores. Em seguida, você reclama das instituições de ensino, depois da opressão policial para com pessoas como você: cruas. Um dia você aprende fórmulas químicas impressionantes, mas percebe que elas não te ajudam a fazer um almoço melhor, ou a beijar aquela encantadora moça que sempre senta ao seu lado no ônibus, mas que nunca lhe deu um olhar. Você percebe que as informações adquiridas começam a perder o valor, e então você avança para o segundo nível.
Você substitui informações. Troca os filtros de lugar e define suas prioridades. "Como se calcula mesmo a área de um círculo?", "Não lembro, mas eu posso fazer uma narguilé com uma garrafa de vinho e uma chave de fenda". Você vê que andar de ônibus não é mais tão divertido quanto quando você andava com sua mãe, na ida para a casa de sua avó. Você sequer ainda tem avós. Seus parentes estão morrendo. E você só quer arranjar um emprego. Quer que alguém financie seus vícios em troca do seu suor.
"Carrega aquele caixote de terra que eu te pago dois maços de cigarro". Oba! "Levanta aquele piano que eu lhe darei duas cervejas e um boné". Depois de algum tempo de vícios e virtudes é que você percebe que o rumo que as coisas tomaram não foi planejado, e após anos de serviços prestados em troca de mimos consumistas, você chora; Terceiro nível.
Quando você não constitui família, não tem emprego, não tem parentes e nem avós vivos, seus pais estão morrendo e aquela moça do ônibus está casada, você aprende que a decisão de trocar a prova de biologia pelo videogame foi boa, mas seria melhor se a troca fosse por Wilde. Percebe que ao invés do retraído "olá", você deveria ter se aventurado em um "posso me arriscar e te dar um beijo?". As escolhas que te fizeram ser o que é, aparecem a noite, tornando o branco começo em negro apocalipse. E a criação perde o sentido principal. Você começa a procurar livros de auto ajuda em sebos, começa a ouvir músicas setentistas tristes e buscar companhia em um copo sujo, cheio de sangue. O sangue que escorreu da sua gravata.
Depois de um tempo, você esquece do nível 2. Acha que toda a culpa é da sociedade, do sistema, da opressão e corrupção policial, acha que a vítima é você. Acaba tendo certeza de certas verdades convenientes. Você é um inocente em meio a tanto desprezo. Você deseja a morte de cada engravatado televisionado. De cada nome de rua, de cada nome de escola. De cada foto estampada em livros de História. Você decide que é inocente da acusação de ser um imbecil. E você começa a ver tudo ficar branco. Um vazio resplandecente, um vácuo absoluto.
Nem a física explica.
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