Fico de costas para a rua enquanto me esforço para acabar com este cigarro, enquanto me definho para engolir este café amargo. -Mais café, senhor?
A atendente deve ter problemas em ler o rosto das pessoas. Penso você deveria saber que se eu retorço o rosto ao beber o café, ele deve estar um tanto ruim. -Não, obrigado, estou satisfeito.
Quem me dera acreditar nisso. Termino o cigarro e o apago na mesa de madeira do bar. Eles devem ter alguém para reparar aquele tipo de agressão. Se não tiverem, terão agora uma mesa com uma bonita queimadura de cigarro. Será que eu pensei nisso quando apaguei aqueles outros em meus braços?.
Ando para onde tenho que ir. Sigo pela calçada até o exato momento de me encontrar com os velhos conhecidos. Os amigos, diriam uns. Eu não digo mais nada.
-Como vai, Eraldo?
-Vou bem, na medida do (im)possível.
-Continua indo aos mesmos lugares?
-Sim sim, Do hospital pra casa, de casa para a sarjeta, e você?
-Vou bem, arrumei um novo emprego e...
É nessa parte que eu começo a cantar em voz baixa. Balbucio as letras que mais me agradam, e assopro melodias enquanto o colega à minha frente enche o peito para falar de seu novo emprego, do seu novo contracheque, da sua nova mesa, dos novos clientes. Essa parte eu chamo de "ouvir por ouvir". Ele parou de mexer a boca, talvez tenha reparado que eu não prestava atenção.
-Então...? ensaio uma extensão da conversa. A música estava no refrão
-Então é isso mesmo, deixei por aquilo mesmo. Não vou me estressar por causa do meu chefe idiota.
O chefe deve ser um cara legal
-Mas então tá, tenho que ir
-Mas vamos marcar alguma coisa!
-Marcamos agora então
Ele ficou sem jeito, o idiota nunca espera sinceridade dos amigos. Eu não gostaria de encontrá-lo mais tarde, mas pelo menos deixei o imbecil sem reação. Ele ficou procurando mentiras no celular, algo que demonstrasse o quão interessado ele está em agendar um encontro.
-Desculpe, aquele é meu ônibus, depois vemos isso.
Saio magistralmente da conversa, deixo o paspalho futricando no celular enquanto eu corro para a parada de ônibus. O coitado estava quase desistindo...
No ônibus percebo que não tenho o cartão para pagar a passagem. Não se pode argumentar com máquinas. Elas exigem somente aquele pedaço colorido de plástico. Nada mais. Não se sorri para máquinas, elas não pedem um abraço, e nem mesmo um favor em troca de outro. Não foi dessa vez... Desci do ônibus e me dei conta de que teria que caminhar. Pequena como é a minha cidade, era provável que eu encontrasse outro idiota no caminho. Outro imbecil.
-Eraldo? uma voz gritou do outro lado da rua.
Eu ignorei e segui adiante. Seria pior ter olhado. Caso o maldito me alcançasse, eventualmente eu teria que me explicar. Apertei o passo. O filho da puta me alcançou. Minhas previsões nunca falham. Poderia jogar na Mega Sena e ganharia o prêmio máximo, se fosse um idiota que fizesse o sorteio.
-Quase que tu foge de mim, rapaz
-Verdade, preciso começar a me exercitar mais
-Hein?
-Nada não. Se eu tiver que repetir, acabaria te dando um soco