Se eu falo, acabo mentindo. Minto mesmo. Vejo mágica nestas estórias que trazem ao peito, suspiros encantadores. Vejo beleza nas vontades enganatórias que publicamos em nossos sorrisos, a procura de amores, de paixões, de falsos desejos. Queremos ter filhos e mentir para os filhos, queremos que os filhos mintam para os netos, e que os bisnetos morram afogados no lixo que produzimos. Respire fundo, e cuidado para não se afogar nas bitucas do meu cinzeiro, filho...
Tudo pela conveniência. Tudo pelo comodismo de ser obeso. Tudo pela vontade de não levantar-se ao ouvir baterem na porta. Será que a porta não consegue se abrir sozinha?
Um dia eu levanto de vez, começo uma dieta a base de sucrilhos de alumínio e drinques de amianto. Um dia eu elevo meu espírito a tal ponto que baterei com a nuca em nuvens doces de plasma. Um dia o quinto elemento me sairá das veias, reflexo puro da vida que mantive. Respiro fundo, inalo a fumaça preta dos escapamentos, trago meu cigarro e cuspo no meu sapato. Acordo cedo.
Não cedo a impulsos eletromagnéticos. Não caio nos contos da Bíblia. Eu cansei de me atirar de braços e esperar Deus para me segurar. Tentei o barbudo clássico de branco, tentei o gordo careca, tentei a mulher de seis braços com uma pinta na testa, tentei um elefante malucão. Nada funcionou. Percebi que sou bom demais para oferecer a outra face. Percebi que sou bom demais para levar bofetadas. Não vou ser malabarista. Não me arrisco a ser mártir e ao mesmo tempo, sorrir ao morrer. Não invento mais sobrenomes. Agora sou eu mesmo. E mais dois, ou três. Se Fernando era Álvaro, por que eu não posso ser outro?
E Alighieri não me deixa mentir, existem mais coisas entre o céu e o inferno do que a sua vã filosofia pode imaginar.