12.5.08

Ode a uma vida insignificante(mente complexa)


















Tudo começa em branco.
No vazio resplandecente, no vácuo absoluto. Nem a física explica a forma como é dado o início. A gênese é oca. Não tem cor, nem forma. Não pretende donzelas, menos ainda dotes em ouro. Não deseja um emprego bom, um salário merecido e nem mesmo hobbys articulados e socialmente aprazíveis. O começo é cru.
Beira o nojento, de tão deserto.

E como em tudo o que se há fundamentos e protocolos, o branco deserto toma formas. Ora perpendiculares, ora oblíquas, e quase sempre, indiferentemente, sem sentido; como esse texto.

E não existe nada em frente ao nada. Não existe princípio de origem, nem célula clone. Não existe companheiro em quem se apoiar, nem irmão cujo ombro lhe assegure conforto.

Quando nada existe, não tem caminho a seguir, se não o de se foder. Sim. Se foder completamente, caindo por todos os lados, se amparando em paredes mofadas.

E um dia você aprende a andar. Com sorte, morre lendo Shakespeare. E no segundo seguinte a morte prematura do vazio, você nasce praguejando contra o serviço social do seu país, e contra seus pais, tão aprisionadores. Em seguida, você reclama das instituições de ensino, depois da opressão policial para com pessoas como você: cruas. Um dia você aprende fórmulas químicas impressionantes, mas percebe que elas não te ajudam a fazer um almoço melhor, ou a beijar aquela encantadora moça que sempre senta ao seu lado no ônibus, mas que nunca lhe deu um olhar. Você percebe que as informações adquiridas começam a perder o valor, e então você avança para o segundo nível.

Você substitui informações. Troca os filtros de lugar e define suas prioridades. "Como se calcula mesmo a área de um círculo?", "Não lembro, mas eu posso fazer uma narguilé com uma garrafa de vinho e uma chave de fenda". Você vê que andar de ônibus não é mais tão divertido quanto quando você andava com sua mãe, na ida para a casa de sua avó. Você sequer ainda tem avós. Seus parentes estão morrendo. E você só quer arranjar um emprego. Quer que alguém financie seus vícios em troca do seu suor.

"Carrega aquele caixote de terra que eu te pago dois maços de cigarro". Oba! "Levanta aquele piano que eu lhe darei duas cervejas e um boné". Depois de algum tempo de vícios e virtudes é que você percebe que o rumo que as coisas tomaram não foi planejado, e após anos de serviços prestados em troca de mimos consumistas, você chora; Terceiro nível.

Quando você não constitui família, não tem emprego, não tem parentes e nem avós vivos, seus pais estão morrendo e aquela moça do ônibus está casada, você aprende que a decisão de trocar a prova de biologia pelo videogame foi boa, mas seria melhor se a troca fosse por Wilde. Percebe que ao invés do retraído "olá", você deveria ter se aventurado em um "posso me arriscar e te dar um beijo?". As escolhas que te fizeram ser o que é, aparecem a noite, tornando o branco começo em negro apocalipse. E a criação perde o sentido principal. Você começa a procurar livros de auto ajuda em sebos, começa a ouvir músicas setentistas tristes e buscar companhia em um copo sujo, cheio de sangue. O sangue que escorreu da sua gravata.

Depois de um tempo, você esquece do nível 2. Acha que toda a culpa é da sociedade, do sistema, da opressão e corrupção policial, acha que a vítima é você. Acaba tendo certeza de certas verdades convenientes. Você é um inocente em meio a tanto desprezo. Você deseja a morte de cada engravatado televisionado. De cada nome de rua, de cada nome de escola. De cada foto estampada em livros de História. Você decide que é inocente da acusação de ser um imbecil. E você começa a ver tudo ficar branco. Um vazio resplandecente, um vácuo absoluto.

Nem a física explica.