11.3.08

Coringa






Estou de novo olhando pr'aquele lago. Tipo criança que fica na ponta dos pés pra olhar por cima do balcão no mercadinho da esquina. Fico refletindo, enquanto o olho o reflexo que o lago me apresenta.













[esse é o momento onde a imagem começa a ganhar um contraste furioso e a trilha sonora fica psicodélica. Então cortamos para uma cena de flashback]







De novo aqui, chutando latinhas na sarjeta. Comprando vinho barato e fumando cigarros feitos por crianças deficientes de Trindad & Tobago. Tiro a franja comprida do rosto e olho pro horizonte. Aqui, na cidade grande, o horizonte não passa de uma avenida, ou um prédio grande, ou talvez um muro imenso, que bloqueia os raios solares pela manhã. No horizonte urbano eu vejo rostos conhecidos. E os vendo, desejo ver outros. E sentindo coisas estranhas e bizarras, desejo ver outras.
Uma tragada a mais...

[a câmera dá um mega close no meu olho, e enquanto eu solto a fumaça, a mesma embaça a lente e volta pra cena inicial]





E agora eu já não sei mais o que eu vivi, e o que viveram por mim. Mas nesse lago de reflexo em que me deparo, o fundo é intocável, e a água, negra como petróleo.

[a música de fundo se eleva na parte das cordas, e a tela escurece]
[fim do ATO 1 ]